A história da Ford está profundamente ligada às competições automobilísticas. Muito antes de se tornar uma das maiores fabricantes do mundo, Henry Ford utilizou as corridas para demonstrar sua capacidade como engenheiro e conquistar investidores. Essa tradição atravessou gerações, passou pelas quatro vitórias consecutivas do GT40 nas 24 Horas de Le Mans, pela formação de pilotos na Fórmula Ford brasileira e pelo domínio do lendário motor V8 Ford-Cosworth DFV na Fórmula 1. Em 2026, a marca iniciou um novo capítulo com a Red Bull Ford Powertrains, parceria dedicada ao desenvolvimento de unidades de potência híbridas. A trajetória também é marcada por histórias pessoais, como as experiências do jornalista e piloto Douglas Mendonça ao volante dos monopostos de Fórmula Ford em Interlagos e Curitiba.
O automobilismo sempre funcionou como um laboratório para a indústria automotiva, permitindo desenvolver tecnologias e avaliar componentes sob condições extremas.
Na Ford, essa ligação começou antes mesmo da fundação da empresa.
Henry Ford venceu corrida em 1901 e conquistou investidores
Em 10 de outubro de 1901, Henry Ford venceu uma corrida em Grosse Pointe, nos Estados Unidos, pilotando o Sweepstakes, automóvel desenvolvido especialmente para competição.
O veículo utilizava motor de dois cilindros e soluções avançadas para a época, incluindo um sistema rudimentar de alimentação de combustível e isoladores de porcelana para os componentes de ignição.
A vitória sobre Alexander Winton, um dos pilotos mais conhecidos daquele período, ajudou Ford a conquistar reconhecimento e apoio financeiro.
Dois anos depois, em 1903, nasceria a Ford Motor Company.
Fórmula Ford ajudou a formar pilotos brasileiros
No Brasil, a ligação da Ford com as pistas ganhou força no início dos anos 1970.
Em fevereiro de 1970, uma prova internacional de Fórmula Ford marcou a reinauguração de Interlagos, com vitória de Emerson Fittipaldi. A categoria nacional se consolidou a partir do período seguinte.
Os monopostos utilizavam chassis tubulares e componentes mecânicos derivados de automóveis de produção.
Nas primeiras configurações brasileiras, motores e transmissões ligados à família Ford Corcel eram adaptados à arquitetura dos carros de corrida.
Uma das soluções envolvia a instalação invertida do câmbio, necessária para adequar a posição dos semieixos à geometria do conjunto com motor traseiro.
Sem recursos aerodinâmicos sofisticados e utilizando pneus derivados de modelos comerciais, a categoria exigia sensibilidade e precisão dos pilotos.
A Fórmula Ford tornou-se uma importante escola do automobilismo brasileiro, associada à formação de nomes como Rubens Barrichello, Chico Serra, Ingo Hoffmann e outros profissionais que avançaram para categorias internacionais.
Douglas Mendonça relembra experiência em Interlagos
O jornalista automotivo e piloto Douglas Mendonça, com mais de 50 anos de atuação no setor, registra uma experiência particular com a categoria.
Em relato sobre a história esportiva da Ford, Mendonça lembra que, por volta de 1986, quando trabalhava na revista Quatro Rodas, teve a oportunidade de dirigir em Interlagos um Fórmula Ford de chassi JQ utilizado pelo piloto Jindra Kraucher.
Naquela época, o carro utilizava motor Ford CHT 1.6 preparado, com potência aproximada de 100 cv a 105 cv.
A preparação envolvia aumento da taxa de compressão, alterações nos coletores e modificações na carburação.
O peso total ficava próximo de 530 kg a 550 kg, incluindo piloto e fluidos, resultando em uma relação peso-potência de aproximadamente 5 kg/cv.
Mesmo com potência relativamente modesta, o conjunto oferecia acelerações rápidas e respostas diretas aos comandos.
Mendonça, que já havia vencido as Mil Milhas Brasileiras em 1983, destaca a diferença entre conduzir carros de turismo preparados e um monoposto aberto.
A posição extremamente baixa de pilotagem, a direção rápida e a ausência de carroceria sobre as rodas proporcionavam sensações distintas.
Um detalhe curioso era a projeção de pequenos pedriscos das rodas dianteiras contra o capacete durante as curvas.
No início dos anos 1990, o jornalista voltou a testar carros da Fórmula Ford no Autódromo Internacional de Curitiba, constatando a permanência da proposta de simplicidade mecânica e valorização da habilidade do piloto.
Ford GT40 derrotou Ferrari em Le Mans
No cenário internacional, uma das histórias mais conhecidas aconteceu na década de 1960.
Após o fracasso das negociações para adquirir a Ferrari, Henry Ford II decidiu desenvolver um carro capaz de enfrentar a fabricante italiana nas pistas.
O resultado foi o Ford GT40, esportivo de competição que conquistou quatro vitórias consecutivas nas 24 Horas de Le Mans, entre 1966 e 1969.
Em 1966, a Ford ocupou as três primeiras posições, estabelecendo um dos momentos mais importantes de sua história esportiva.
A disputa inspirou posteriormente o filme Ford vs. Ferrari.
Motor Ford-Cosworth DFV conquistou 155 vitórias na F1
Outro capítulo decisivo começou em 1967, com a estreia do motor Ford-Cosworth DFV, um V8 atmosférico de três litros com quatro válvulas por cilindro.
Desenvolvido em parceria com a Cosworth, o propulsor conquistou sua primeira vitória com Jim Clark, pilotando um Lotus 49 no Grande Prêmio da Holanda.
Entre 1967 e 1983, o DFV acumulou 155 vitórias na Fórmula 1, contribuindo para 12 títulos mundiais de pilotos e dez de construtores.
Sua arquitetura e disponibilidade para diferentes equipes ajudaram a transformar a categoria.
O motor tornou-se uma referência de potência, confiabilidade e simplicidade relativa de instalação para os padrões da época.
Ford retorna à Fórmula 1 com propulsão híbrida em 2026
A história continua com a parceria Red Bull Ford Powertrains, responsável pelo desenvolvimento das unidades de potência utilizadas pela Red Bull Racing e Racing Bulls a partir da temporada de 2026.
O projeto integra motor a combustão, sistemas elétricos, baterias e software de gerenciamento energético.
A Ford contribui com conhecimentos em motores, eletrificação, sistemas de controle e processos de fabricação.
A nova fase demonstra como o automobilismo evoluiu de motores exclusivamente térmicos para conjuntos que precisam administrar potência elétrica, recuperação de energia e eficiência energética.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – A trajetória da Ford demonstra como o automobilismo contribuiu para o desenvolvimento da engenharia automotiva.
O Sweepstakes de Henry Ford mostrou a importância da alimentação de combustível e da confiabilidade da ignição. O GT40 levou a resistência mecânica ao limite nas provas de longa duração, enquanto o Ford-Cosworth DFV estabeleceu uma referência para os motores de competição.
No Brasil, a Fórmula Ford contribuiu para a formação de pilotos por meio de veículos leves, de construção relativamente simples e comportamento dinâmico exigente.
A relação peso-potência de aproximadamente 5 kg/cv explica por que um monoposto com pouco mais de 100 cv podia oferecer desempenho tão expressivo.
O relato do amigo Douglas Mendonça também ajuda a compreender uma característica essencial desses veículos: a ausência de recursos aerodinâmicos sofisticados exigia controle preciso das transferências de carga, da frenagem e da aceleração.
Em 2026, a parceria com a Red Bull representa outra etapa dessa evolução, agora concentrada em sistemas híbridos e gerenciamento eletrônico.
O princípio permanece semelhante ao das primeiras corridas: utilizar a competição para desenvolver conhecimentos técnicos, testar soluções e aperfeiçoar o desempenho dos veículos.
Como lembra a tradicional expressão da indústria americana, “Win on Sunday, sell on Monday” — vença no domingo, venda na segunda-feira.
Fonte e memória histórica: matéria elaborada a partir do relato “DNA Ford: Como as corridas moldaram a história da marca”, de Douglas Mendonça, jornalista automotivo com mais de 50 anos de experiência e piloto vencedor das Mil Milhas Brasileiras de 1983 e dos Mil Quilômetros de Brasília de 2004. Os episódios de pilotagem em Interlagos e Curitiba são experiências pessoais relatadas pelo autor.
Para acompanhar Ford, Fórmula Ford, automobilismo histórico e engenharia de competição, siga @tarcisiomecanicaonline.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- 1901 – Henry Ford vence com o Sweepstakes.
- 1966 a 1969 – Quatro vitórias consecutivas do Ford GT40 em Le Mans.
- 1967 – Estreia do motor Ford-Cosworth DFV na Fórmula 1.
- 155 vitórias – Resultados conquistados pelo DFV entre 1967 e 1983.
- 1970 – Fórmula Ford internacional participa da reinauguração de Interlagos.
- 1986 – Período aproximado do primeiro teste de Douglas Mendonça com um Fórmula Ford.
- 2026 – Início da nova parceria técnica entre Ford e Red Bull na Fórmula 1.
Mecânica Online® – Mecânica do jeito que você entende
- Chassi tubular – Estrutura construída com tubos metálicos para oferecer resistência e baixo peso.
- Relação peso-potência – Indicador que relaciona a massa de um veículo à potência disponível.
- Motor aspirado – Motor que admite ar sem a utilização de turbocompressor ou compressor mecânico.
- Câmbio invertido – Configuração de montagem da transmissão adaptada às necessidades geométricas do conjunto mecânico.
- Downforce – Força aerodinâmica que pressiona o veículo contra o solo em movimento.
- Unidade de potência híbrida – Conjunto que integra motor a combustão, propulsão elétrica e sistemas de recuperação e gerenciamento de energia.


