Mais de 200 mil pessoas já passaram pelo CARDE desde sua abertura ao público, em novembro de 2024. Para celebrar a marca, o museu de Campos do Jordão resgata um capítulo fundamental da indústria automobilística nacional: os 70 anos do início da produção da Romi-Isetta, pequeno automóvel de uma única porta que começou a ser fabricado em junho de 1956 e se tornou símbolo dos primeiros passos da produção brasileira de carros de passeio.
O CARDE, em Campos do Jordão (SP), ultrapassou 200 mil visitantes próximo de completar dois anos de funcionamento. Criado pela Fundação Lia Maria Aguiar (FLMA), o museu utiliza o automóvel como fio condutor para apresentar diferentes períodos da história brasileira e mundial.
Seu acervo reúne mais de 120 automóveis clássicos, além de mobiliário e mais de uma centena de obras entre quadros, esculturas, joias e peças históricas.
“Nossa meta é transmitir conhecimento e cultura, seja pelas obras de arte ou até mesmo por meio de automóveis que marcaram a infância, trazem lembranças de viagens de família ou que representaram momentos importantes de diversas épocas”, afirma Luiz Goshima, diretor do CARDE e membro honorário da Fundação Lia Maria Aguiar.
A celebração dos 200 mil visitantes coincide com uma nova exposição temporária dedicada aos 70 anos do início da produção da Romi-Isetta, aberta ao público até 12 de outubro.
Romi-Isetta começou a ser produzida no Brasil em 1956
A exposição recupera não apenas o automóvel, mas o contexto tecnológico, industrial e social no qual ele surgiu.
A Romi-Isetta teve sua produção iniciada em junho de 1956, nas Indústrias Romi S.A., em Santa Bárbara d’Oeste, interior paulista. Considerada no material do museu como o primeiro automóvel de passeio fabricado em série no Brasil, utilizava como base o conceito e o conjunto mecânico do microcarro italiano Iso Isetta, apresentado três anos antes no Salão de Turim.
O modelo era produzido sob licença e chamava atenção por uma solução difícil de passar despercebida: a única porta ficava na parte dianteira do veículo.
Ao abrir, volante e painel de instrumentos movimentavam-se conjuntamente, liberando espaço para entrada e saída dos ocupantes.
Segundo as informações apresentadas pelo CARDE, o pequeno automóvel fazia 25 km/l de gasolina e atingia velocidade máxima de 85 km/h.
Romi-Isetta 300 de Luxe recebeu motor BMW
Um dos exemplares apresentados na exposição é uma Romi-Isetta 300 de Luxe 1959.
A versão chegou ao mercado naquele ano, após o encerramento do contrato com a Iso, utilizando uma nova motorização fornecida pela BMW. Segundo o museu, o conjunto mantinha o rendimento da versão anterior, mas apresentava diferenças em torque, potência e conforto, além de alterações pontuais no visual externo.
A trajetória industrial da Romi-Isetta foi relativamente curta. Sua produção terminou em 1961, e a estimativa apresentada pelo CARDE é de que pouco mais de 3 mil unidades tenham sido fabricadas entre 1956 e 1961.
A baixa quantidade produzida e a importância histórica contribuíram para tornar os exemplares sobreviventes altamente colecionáveis.
Documentos mostram os bastidores da produção brasileira
A exposição vai além dos automóveis. O visitante também poderá conhecer materiais preservados pela Fundação Romi no Centro de Referência e Pesquisa do museu.
O acervo inclui projetos técnicos, desenhos, fotografias, registros históricos e documentos originais, permitindo compreender como ocorreu a produção do veículo e parte dos desafios encontrados pela indústria brasileira naquele período.
Esse contexto é particularmente relevante porque transforma a Romi-Isetta em mais do que uma curiosidade automobilística.
Suas dimensões reduzidas e a porta dianteira podem ser os elementos que imediatamente despertam atenção, mas sua história está ligada aos primeiros movimentos da produção nacional de automóveis de passeio em série.
Automóveis ajudam a contar diferentes épocas
A proposta do CARDE parte justamente dessa ligação entre automóvel e contexto histórico. O nome reúne quatro pilares do projeto: Carro, Arte, Design e Educação.
Os ambientes são organizados com referências a diferentes décadas dos anos 1900 e combinam veículos com obras de arte, mobiliário, objetos, iluminação e conteúdo audiovisual.
O acervo artístico inclui trabalhos de nomes como Candido Portinari, Di Cavalcanti, José Zanine Caldas, Frans Krajcberg, Vik Muniz, Djanira da Motta e Silva e Heitor dos Prazeres, entre outros.
O museu também mantém uma equipe de monitores formada por jovens egressos da Fundação Lia Maria Aguiar, preparados para acompanhar os visitantes e contextualizar automóveis, obras e objetos apresentados ao longo do percurso.
Acervo brasileiro já conquistou prêmios internacionais
Apesar do pouco tempo de funcionamento, automóveis pertencentes ao CARDE também ganharam reconhecimento em importantes eventos internacionais de veículos históricos.
Em 2025, o Isotta Fraschini Tipo 8A SS Guida Interna Sport 1928 recebeu o troféu “Lap of Luxury” no Pebble Beach Concours d’Elegance.
Na mesma semana, durante o The Quail, uma Ferrari F50 1995 do acervo conquistou o prêmio máximo na categoria dedicada aos 30 anos do modelo. O exemplar possui uma característica particularmente rara: é o segundo dos três protótipos construídos antes das 349 unidades destinadas ao mercado.
Em 2026, outro Isotta Fraschini do CARDE, o Tipo 8A Cabriolet d’Orsay 1925, conquistou o segundo lugar na categoria de clássicos europeus acima de 4 litros na 75ª edição do concurso de elegância de Pebble Beach.
Mecânica Online® com Tarcisio Dias – A Romi-Isetta é interessante justamente porque sua importância vai muito além de números de potência ou desempenho. Estamos falando de um automóvel que ajuda a entender um momento em que a indústria brasileira ainda construía as bases de sua produção nacional.
Tecnicamente, seu projeto também revela como as prioridades eram diferentes. Uma única porta dianteira, dimensões extremamente compactas e uma proposta voltada à economia produziram uma solução que hoje parece exótica, mas fazia sentido dentro da lógica dos microcarros daquele período.
A versão 300 de Luxe de 1959 acrescenta outro elemento interessante: a adoção de motorização fornecida pela BMW, mostrando como diferentes fabricantes e fornecedores internacionais participaram dessa história.
Ter projetos, desenhos, fotografias e documentos junto ao automóvel ajuda a evitar que um clássico seja visto apenas como objeto decorativo. Preservar a engenharia também significa preservar como aquele veículo foi pensado, desenvolvido e produzido.
É nesse ponto que uma exposição sobre os 70 anos da Romi-Isetta ganha importância: ela conecta memória, indústria e engenharia, permitindo entender de onde partiu uma parte da história automobilística brasileira.
Para acompanhar histórias dos automóveis que ajudaram a construir a indústria brasileira, além da engenharia e das soluções mecânicas por trás dos grandes clássicos, siga @tarcisiomecanicaonline.
Retrovisor Mecânica Online® – Entenda o que está por trás da notícia
- 200 mil visitantes – O CARDE atingiu a marca antes de completar dois anos desde sua abertura ao público, ocorrida em novembro de 2024.
- 70 anos – A produção da Romi-Isetta começou em junho de 1956 nas Indústrias Romi, em Santa Bárbara d’Oeste (SP).
- Uma única porta – O acesso era realizado pela dianteira, com volante e painel movimentando-se junto com a porta.
- 25 km/l – É o consumo informado para a Romi-Isetta, que também alcançava velocidade máxima de 85 km/h.
- Pouco mais de 3 mil – É a estimativa de unidades produzidas entre 1956 e o encerramento da fabricação, em 1961.
- Até 12 de outubro – A exposição comemorativa dos 70 anos da Romi-Isetta permanece aberta no CARDE até essa data.
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- Microcarro – Categoria de automóveis extremamente compactos, desenvolvidos principalmente para deslocamentos urbanos, baixo consumo e ocupação reduzida de espaço.
- Produção sob licença – Fabricação realizada mediante autorização para utilização de um projeto ou tecnologia pertencente a outra empresa, como ocorreu inicialmente com o conceito da Iso Isetta.
- Porta frontal – Solução característica da Isetta na qual toda a parte dianteira funciona como acesso à cabine, exigindo também o deslocamento do volante e do painel.
- Colecionável – Veículo cuja relevância histórica, raridade, originalidade e estado de conservação podem aumentar o interesse de museus e colecionadores.

